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Receitas regionais do Brasil, do tacacá ao barreado, por Andre Raittz

Receitas

Pé de moleque: a receita tradicional de amendoim com rapadura e o ponto certo

Publicado em 8 de outubro de 2026

Pé de moleque é o doce de amendoim torrado envolvido em calda de rapadura ou açúcar, cozida até o ponto de bala dura e cortada em barrinhas depois de fria. É doce de festa junina, ligado a São Paulo e a Minas Gerais. No Nordeste, o nome é de um bolo de massa de mandioca com castanha.

Pé de moleque tradicional

  • Rende: 30 pedaços
  • Preparo: 10 min
  • Cozimento: 25 min
  • Total: 35 min

Ingredientes

  • 500 g de amendoim torrado sem pele
  • 500 g de rapadura ralada (ou açúcar mascavo)
  • 1/2 xícara (chá) de água
  • 1 colher (sopa) de manteiga, mais um pouco para untar

Modo de preparo

  1. Unte com manteiga uma assadeira ou uma superfície de mármore, ou forre com papel-manteiga.
  2. Numa panela de fundo grosso, leve a rapadura e a água ao fogo médio, mexendo até derreter.
  3. Deixe ferver sem mexer até a calda engrossar e escurecer, cerca de 15 minutos. Pingue um fio num copo de água gelada: o ponto é quando ele endurece e quebra com estalo (145 °C a 150 °C no termômetro).
  4. Junte o amendoim e a manteiga e mexa por 1 a 2 minutos, até todos os grãos ficarem envolvidos pela calda.
  5. Despeje rapidamente na superfície untada e espalhe com uma espátula, numa camada de cerca de 1,5 cm.
  6. Corte em quadrados enquanto ainda estiver morno. Deixe esfriar por completo antes de separar e guardar.
Pedaço retangular de pé de moleque com amendoins envolvidos em calda dourada
Foto: Meksyk, domínio público, via Wikimedia Commons

O que é pé de moleque

No Sudeste e no Sul, pé de moleque é o doce duro de amendoim torrado envolvido numa calda de rapadura ou de açúcar cozida até o ponto de quebrar. Depois de frio, é cortado em quadrados ou barrinhas que estalam na mordida. É o doce mais presente das festas juninas, vendido em feiras, rodoviárias e beiras de estrada, e uma das receitas mais antigas da doçaria brasileira.

São só dois ingredientes principais, amendoim e açúcar, e o resultado depende quase todo do ponto da calda. Quando o ponto falha, o pé de moleque fica puxa-puxa ou não endurece, as duas reclamações mais comuns de quem faz em casa.

O que é pé de moleque no Nordeste

Em Pernambuco, na Bahia e no Ceará, pé de moleque é outra coisa: um bolo denso de massa de mandioca (puba ou carimã) com rapadura derretida, leite de coco, castanha de caju, cravo e erva-doce, assado muitas vezes em folha de bananeira. É escuro, úmido e perfumado, e aparece no São João e no Natal. Os dois doces dividem o nome e a rapadura, mas são receitas diferentes. Este texto ensina o pé de moleque de amendoim.

De onde vem e por que tem esse nome

O doce nasceu do encontro de dois ingredientes: o amendoim, planta nativa da América do Sul que os indígenas já cultivavam, e o açúcar da cana, trazido pelos portugueses no século XVI. A tradição situa a origem na capitania de São Vicente, no litoral paulista, onde se instalaram os primeiros engenhos, mas não há documento que prove onde ele foi feito pela primeira vez. No século XIX, o livro Doceiro Nacional já trazia duas receitas, uma com açúcar e outra com rapadura.

Sobre o nome, há duas explicações populares. A mais repetida diz que as doceiras de rua, quando os meninos rondavam o tabuleiro para pegar doce, gritavam "pede, moleque!". A outra liga o doce ao calçamento pé de moleque, de pedras irregulares encaixadas, comum nas cidades coloniais, que o doce lembra com os amendoins saltando da calda. Nenhuma das duas tem prova documental.

Hoje, a cidade de Piranguinho, no sul de Minas Gerais, é conhecida como a capital do pé de moleque, com dezenas de barracas às margens da rodovia e uma festa anual dedicada ao doce. Em julho de 2026, uma lei estadual deu à cidade o título de Capital Mineira do Pé de Moleque; o título de capital nacional ainda é projeto de lei no Congresso.

Os ingredientes

Amendoim. Use amendoim torrado e sem pele. Se comprar cru, torre no forno a 180 °C por 15 a 20 minutos, mexendo na metade, e esfregue num pano para soltar a pele. Nesta receita o amendoim fica pouco tempo na calda, e se entrar cru fica com gosto de grão verde.

Rapadura ou açúcar. A rapadura ralada dá a cor escura e o sabor de melado do pé de moleque tradicional. Açúcar mascavo é o substituto mais próximo. Com açúcar refinado o doce fica claro e mais neutro, e muitas receitas juntam um pouco de bicarbonato no fim para deixá-lo mais leve e quebradiço.

Leite condensado. Há uma versão moderna, com leite condensado e manteiga, que resulta num pé de moleque cremoso, mais macio e de corte. É outro doce, gostoso, mas não o tradicional de quebrar.

O ponto da calda

A calda de rapadura com um pouco de água ferve até engrossar e escurecer. Para pé de moleque duro, ela precisa chegar ao ponto de bala dura: pingue um fio de calda num copo de água gelada; se formar um fio que se quebra com estalo, está pronto. Com termômetro culinário, isso acontece entre 145 °C e 150 °C. Só então o amendoim entra, e a mistura é mexida por um a dois minutos até envolver todos os grãos.

A massa vai imediatamente para uma superfície untada ou forrada com papel-manteiga e é espalhada rápido, porque endurece em poucos minutos. Corte enquanto ainda está morna; frio, ele estilhaça.

Por que o pé de moleque fica puxa-puxa

Quase sempre é a calda que não chegou ao ponto: ela foi tirada do fogo cedo, ainda com água demais, e fica elástica depois de fria. Dias úmidos e chuvosos pioram, porque o açúcar absorve a umidade do ar. Se o pé de moleque não endureceu, dá para salvar: volte a mistura à panela com 2 colheres de água, deixe derreter em fogo baixo e cozinhe até o ponto certo, fazendo o teste da água gelada. Se ficou duro demais e escuro, a calda passou do ponto e começou a caramelizar; da próxima vez, tire alguns segundos antes.

Outros doces e como guardar

Na mesa de festa junina, o pé de moleque vai bem ao lado da canjica e do brigadeiro. Entre as receitas do Sul, a cuca alemã é outra receita de família que atravessa gerações. Guarde o pé de moleque em pote bem fechado, em local seco e fresco, por até 15 dias, separando as camadas com papel-manteiga. Não leve à geladeira: a umidade amolece o doce.

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