Sarapatel: a receita nordestina de miúdos de porco e a sua origem portuguesa
Publicado em 8 de outubro de 2026
Sarapatel é um guisado de miúdos de porco, como fígado, coração, rins, bofe e tripas, cozidos num molho escuro com sangue coalhado, cominho, louro e hortelã. Veio de Portugal, onde ainda se faz no Alentejo, e virou prato típico do Nordeste, servido com farinha de mandioca e arroz branco.
Sarapatel de porco
Ingredientes
- 1,5 kg de miúdos de porco (fígado, coração, rins, bofe e tripas limpas)
- 1 xícara (chá) de sangue de porco coalhado, de origem inspecionada (opcional)
- 100 g de toucinho em cubinhos
- 3 limões
- 1/2 xícara (chá) de vinagre
- 6 dentes de alho amassados
- 2 cebolas picadas
- 3 tomates picados
- 1 pimentão verde picado
- 1 colher (chá) de cominho em pó
- 3 folhas de louro
- 2 pimentas-de-cheiro picadas
- 1/2 xícara (chá) de coentro picado
- 2 colheres (sopa) de hortelã picada
- Pimenta-do-reino e sal a gosto
- Água quente
Modo de preparo
- Lave bem os miúdos em água com o suco dos limões e metade do vinagre, esfregando, e enxágue. Repita a lavagem.
- Afervente os miúdos em água por 5 minutos, escorra e descarte a água.
- Corte tudo em cubos pequenos e tempere com metade do alho, o cominho, o restante do vinagre, a pimenta-do-reino e sal. Deixe na geladeira por pelo menos 2 horas.
- Na panela de pressão, derreta o toucinho e refogue a cebola, o alho restante, o tomate, o pimentão e a pimenta-de-cheiro.
- Junte as tripas, o bofe, o coração e os rins com o louro e refogue por 10 minutos. Cubra com água quente, tampe e cozinhe por 25 minutos depois de pegar pressão.
- Abra a panela, junte o fígado e cozinhe sem tampa por 15 minutos, até o molho reduzir.
- Esfarele o sangue coalhado, junte à panela e cozinhe em fervura por mais 10 minutos, mexendo com cuidado, até engrossar e o sangue ficar todo escuro, sem pontos vermelhos. Sem sangue, apenas deixe o molho apurar.
- Acerte o sal, finalize com o coentro e a hortelã e sirva com farinha de mandioca e arroz branco.
O que é sarapatel
Sarapatel é um guisado de miúdos de porco (fígado, coração, rins, bofe e tripas, às vezes língua e toucinho), cortados em pedacinhos e cozidos num molho escuro e grosso, temperado com alho, cebola, tomate, pimentão, cominho, louro e pimenta. Na versão tradicional, o sangue do porco, coalhado com vinagre, entra no fim e dá a cor e a textura. É comida forte, de sabor profundo, servida com farinha de mandioca, arroz branco e pimenta.
No Nordeste do Brasil, o sarapatel é prato de domingo, de feira, de bar e de festa, especialmente em Pernambuco, na Bahia, em Sergipe, em Alagoas e no Ceará. Quem gosta defende como um dos grandes pratos da região; quem não gosta de miúdos passa longe. Não há meio-termo.
De onde vem o sarapatel
O sarapatel veio de Portugal. No Alentejo, especialmente em Castelo de Vide, ainda se fazem as sopas de sarapatel na Páscoa, com miúdos e sangue de borrego. O nome tem o sentido de confusão, mistura, pela quantidade de partes do animal que vão à panela. Com a expansão portuguesa, o prato seguiu para a Índia, onde virou o sorpotel de Goa, temperado com vinagre e especiarias, e para o Brasil, onde ganhou o porco como carne principal, o coentro, a hortelã e a pimenta.
No Brasil, o sarapatel aparece entre os pratos que Manuel Querino registrou em A arte culinária na Bahia, publicado em 1928, um dos primeiros livros sobre a cozinha baiana. Foi também comida de aproveitamento: nas matanças de porco, os miúdos precisavam ser cozidos no mesmo dia, e o sarapatel era a forma de transformá-los em prato para muita gente.
Sarapatel de porco, de bode, de carneiro e de boi
O sarapatel de porco é o mais tradicional e o mais encontrado em Pernambuco e na Bahia. No sertão, o sarapatel de bode ou de carneiro é muito apreciado, feito com os miúdos do animal abatido para a festa, muitas vezes no mesmo dia da buchada. Existe ainda o sarapatel de boi, com fígado, coração e bucho bovinos, de sabor mais suave. A técnica é a mesma para todos; o que muda é o tempo de cozimento.
Os ingredientes
Miúdos. Compre de açougue de confiança, frescos, com cor viva e sem cheiro forte. Muitos mercados nordestinos vendem o kit de sarapatel, já com as partes separadas e as tripas limpas. Fígado, coração e rins são fáceis de achar em qualquer cidade; o bofe e as tripas podem exigir encomenda.
Sangue. É o que dá a cor escura e o sabor característico. Deve ser sangue coalhado de origem inspecionada, vendido em alguns açougues e mercados do Nordeste. Fora da região é difícil de encontrar, e muita gente faz o sarapatel sem sangue, que fica mais claro e de sabor mais suave.
Temperos. Cominho, louro, coentro, hortelã, pimenta-do-reino e pimenta-de-cheiro. A hortelã é um traço baiano e pernambucano que diferencia o sarapatel brasileiro.
O modo de preparo explicado
A limpeza é a etapa mais importante e a que define se o sarapatel fica bom. Os miúdos são lavados várias vezes em água com limão e vinagre, depois aferventados por alguns minutos e escorridos, com a água descartada. As tripas são viradas, raspadas e lavadas até ficarem claras. Esse cuidado tira o cheiro forte e garante a segurança.
Depois os miúdos são cortados em cubinhos pequenos, de tamanho parecido para cozinharem por igual, e temperados com alho, sal, cominho e vinagre por algumas horas. O cozimento começa com o toucinho derretido e o refogado de cebola, tomate e pimentão. Entram as partes mais duras primeiro (tripa, bofe, coração), e o fígado no fim, porque endurece se cozinhar demais. Na panela de pressão, as partes duras ficam macias em 20 a 30 minutos.
O sangue coalhado, guardado na geladeira até a hora de usar e esfarelado com as mãos, entra nos últimos 10 minutos, com o molho fervendo. Mexa com cuidado e deixe engrossar até o sangue ficar todo escuro, sem pontos vermelhos. Prove e acerte o sal, o vinagre e a pimenta.
Com o que servir
O sarapatel vai com farinha de mandioca ou pirão, arroz branco, feijão e um molho de pimenta. Na Bahia, é comum vê-lo na mesa de festa ao lado de outros pratos de panela como o caruru e o vatapá. Outros pratos de panela demorada e sabor forte no blog são o pato no tucupi paraense e o barreado, guisado longo de carne servido com farinha.
Como guardar
Como todo prato de miúdos, o sarapatel fica melhor no dia seguinte, quando os temperos assentam. Guarde na geladeira por até 2 dias, em pote fechado, e reaqueça bem, até ferver. Para congelar, use porções e consuma em até 2 meses, descongelando na geladeira.


