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Receitas regionais do Brasil, do tacacá ao barreado, por Andre Raittz

Receitas

Tacacá: o que é, ingredientes e receita do Pará

Publicado em 13 de setembro de 2021 · revisado em 15 de outubro de 2026

Tacacá em cuia escura sobre cesto de palha, com tucupi, camarões e folhas de jambu

Tacacá é um caldo quente de origem indígena, típico do Pará e de toda a Amazônia, servido em cuia com tucupi (o caldo amarelo e ácido da mandioca brava), goma de mandioca, jambu, que deixa a boca formigando, e camarão seco. Abaixo, a receita para 5 cuias, o que fazer sem tucupi ou jambu, o ponto da goma e os erros que deixam o tacacá salgado ou empelotado.

Tacacá

  • Rende: 5 porções
  • Preparo: 30 min
  • Cozimento: 30 min
  • Total: 60 min

Ingredientes

  • 2 litros de tucupi
  • 4 dentes de alho bem amassados
  • 1 colher (chá) de sal
  • 4 folhas de chicória
  • 3 pimentas-de-cheiro
  • 2 maços de jambu
  • 500 g de camarão salgado (seco)
  • 4 xícaras (chá) de água
  • 1/2 xícara (chá) de polvilho azedo (ou goma de mandioca)

Modo de preparo

  1. Coloque o tucupi em uma panela com o alho amassado, o sal, a chicória e as pimentas e leve ao fogo.
  2. Quando começar a ferver, abaixe o fogo, tampe a panela e cozinhe por cerca de 30 minutos.
  3. Ao mesmo tempo, em outra panela, cozinhe o jambu até ficar tenro. Escorra e reserve.
  4. Se os camarões estiverem muito salgados, deixe-os antes de molho em água fresca por algumas horas, trocando a água. Lave bem e ferva por cerca de 5 minutos com as 4 xícaras de água. Retire a cabeça e a casca e guarde a água.
  5. Deixe a água dos camarões esfriar, dissolva nela o polvilho e leve ao fogo baixo, mexendo sem parar até obter um mingau transparente (a goma).
  6. Sirva em cuia: uma concha de tucupi, um pouco da goma, algumas folhas de jambu e os camarões.

A receita do tacacá é uma iguaria originada do Norte do Brasil, mais especificamente do Pará, Acre, Amazonas, Rondônia e Amapá. Vamos conhecer essa verdadeira obra de arte culinária?

Para pular para a receita, utilize o índice interativo abaixo:

O que é tacacá?

O tacacá é preparado com um caldo fino de cor amarelada, chamado de tucupi (originado da mandioca brava), sobre o qual se coloca goma, camarão e jambu.

Esse é um prato que deve ser servido muito quente e deve ser temperado com sal e pimenta para realçar os sabores presentes no prato.

A origem da receita do tacacá é dos indígenas paraenses e, segundo historiadores, é uma receita derivada de um tipo de sopa indígena denominada mani poi. Interessante como é a história da culinária brasileira, em especial do norte do país, certo?

Por incrível que pareça, o tacacá não é considerado por muitos uma refeição. O tacacá é considerado uma espécie de bebida ou sopa a qual deve ser servida em cuias e vendida pelas “tacacazeiras” (aquelas que fazem o tacacá) no final do dia, geralmente ao anoitecer.

Tal acontecimento ocorre todos os dias nas esquinas das principais ruas das cidades do norte do país

O tacacá não pode faltar nos fins de tarde da população da Amazônia, e é tão significante, que os compositores da região incluem nos versos de suas canções, esse precioso alimento que já é cultural na vida do povo da região amazônica do Brasil.

Incrível como a culinária do norte do país se expressa na cultura do local, certo?

Que tal agora você aprender como fazer essa iguaria sem comparação?

Duas tigelas de tacacá com camarões, jambu e tucupi sobre bandeja de vime
Tacacá

Receita de Tacacá

Ingredientes

Modo de Preparo do Tacacá

  1. Coloque o tucupi em uma panela com o alho bem amassado, o sal, a chicória e as pimentas.
  2. Leve ao fogo.
  3. Quando começar a ferver, abaixe o fogo, tampe a panela e deixe cozinhar por 30 minutos aproximadamente.
  4. Simultaneamente em outra panela, cozinhe o jambu até ficar tenro.
  5. Retire do fogo, escorra e reserve.
  6. Lave bem os camarões e leve-os ao fogo em uma panela com 4 xícaras de água.
  7. Deixe ferver por aproximadamente 5 minutos.
  8. Retire a cabeça e a casca.
  9. Em uma panela, misture o polvilho com a água dos camarões, leve ao fogo e mexa até obter um mingau.
  10. Sirva em uma cuia com uma concha de tucupi, um pouco do mingau, algumas folhas de jambu e os camarões.

Quer mais receitas como essa? Confira a nossa seção especial aqui do Cozinha Brasileira clicando aqui.

O que vai no tacacá: cada ingrediente e onde achar

O tacacá original leva poucos ingredientes, e cada um tem papel próprio. Fora do Norte, quase todos aparecem congelados ou engarrafados em lojas de produtos nortistas, empórios e vendas pela internet.

IngredienteO que éSe não achar
TucupiCaldo amarelo e ácido extraído da mandioca brava, fermentado e fervidoNão tem substituto: compre em garrafa ou congelado
GomaFécula de mandioca, vendida úmida nas feiras do Norte, cozida em água até virar um mingau transparentePolvilho azedo ou doce, como na receita acima
JambuErva amazônica que deixa a boca dormenteJambu congelado ou em conserva; sem ele, o tacacá perde a marca
Camarão secoCamarão salgado e seco ao sol, vendido em feiras e mercadosCamarão seco de mercado municipal ou de loja de produtos nordestinos, bem dessalgado
Chicória-do-paráErva de folha serrilhada, de cheiro parecido com o do coentroCoentro, em pouca quantidade
Pimenta-de-cheiroPimenta aromática e pouco ardidaPimenta-biquinho ou dedo-de-moça sem semente

Um cuidado com o tucupi: a mandioca brava libera ácido cianídrico, e é a fermentação seguida de fervura longa que torna o caldo seguro para comer, segundo a Embrapa. Por isso, prefira tucupi de produtor conhecido e nunca use o líquido cru da mandioca. O mesmo tucupi serve para o pato no tucupi.

Como acertar o ponto do tacacá

O tacacá é a soma de quatro preparos feitos em panelas separadas e juntados só na cuia. Cada um tem seu ponto:

Na montagem, a ordem que as tacacazeiras costumam seguir é tucupi, goma, mais tucupi, jambu e os camarões por cima, completando a cuia com tucupi fervendo. É o caldo bem quente que solta a goma em fios.

Erros comuns no tacacá e como corrigir

ProblemaCausa provávelComo corrigir
Goma empelotadaPolvilho jogado em líquido quente, ou pouca mexidaBata com um fouet ou passe pela peneira; da próxima vez, dissolva no líquido frio
Goma grossa e borrachudaPolvilho demais ou fogo longoJunte água quente aos poucos, mexendo, até voltar a escorrer em fio
Tacacá salgado demaisCamarão sem dessalgar somado ao sal do tucupiDeixe o camarão mais tempo de molho, trocando a água, e complete o caldo com tucupi sem sal
Jambu escuro e sem formigarCozido demaisCozinhe só até o talo amaciar e escorra na hora
Goma em bolo no fundo da cuiaTucupi morno na montagemMantenha o tucupi em fogo baixo e sirva fervendo

Como se toma o tacacá e como guardar

O tacacá chega numa cuia escura, feita do fruto da cuieira, muitas vezes apoiada numa cestinha de palha: caldo amarelo fervendo, goma esbranquiçada, folhas verde-escuras de jambu e camarões alaranjados por cima. Toma-se sem colher, bebendo o caldo pela borda, e o camarão e o jambu são pescados com o palito que vem junto. Fica entre a sopa e a bebida, e em Belém o horário dele é o fim da tarde, por volta das 17h.

Quem toma pela primeira vez estranha o jambu: ele deixa lábios e língua dormentes e formigando. O efeito vem do espilantol, substância da planta que age como um anestésico leve, e passa em poucos minutos. Na barraca, dá para pedir a cuia do seu jeito, com mais ou menos jambu, goma, camarão ou pimenta.

Para guardar: o tucupi temperado vai à geladeira em pote fechado e pode ser congelado, que é como costuma ser vendido fora do Norte; ferva de novo antes de servir. A goma endurece na geladeira, por isso o melhor é fazer só a quantidade da hora.

E a grafia certa é tacacá, com acento agudo no último a. Tacaca, tataca e takaca são formas erradas que aparecem bastante nas buscas.

De onde vem o tacacá: origem e história

O tacacá é de origem indígena. Reportagens sobre a história do prato o apontam como uma variação do mani poi, uma sopa dos povos originários da Amazônia. A palavra tacacá vem do nheengatu, a língua geral de base tupi falada na Amazônia. Um dos registros escritos antigos é do médico alemão Robert Avé-Lallemant, que viajou pelo rio Amazonas em 1859: segundo a Folha de Pernambuco, ele descreve em Serpa, hoje Itacoatiara, no Amazonas, uma bebida que provavelmente era o tacacá e que anotou como "cacacá".

Da aldeia, o tacacá passou para a rua, nas barracas das tacacazeiras, quase sempre mulheres. A Lei estadual 7.549, de 2011, incluiu o prato no patrimônio cultural imaterial do Pará, ao lado do pato no tucupi, da maniçoba, do caruru, do vatapá e do chibé. Em 2013, o estado (Lei 7.752) e a cidade de Belém (Lei 8.979) reconheceram também as tacacazeiras, e Belém comemora o Dia da Tacacazeira em 13 de setembro. Em novembro de 2025, o Iphan aprovou o registro do Ofício das Tacacazeiras da Região Norte como Patrimônio Cultural do Brasil, no Livro dos Saberes, na 111ª reunião do seu Conselho Consultivo, depois de uma pesquisa da Universidade Federal do Oeste do Pará que documentou em vídeo histórias e receitas de tacacazeiras das capitais dos sete estados do Norte. É o mesmo reconhecimento que as baianas do acarajé receberam em 2005.

O tacacá também está na música: "Voando pro Pará", de Joelma, lançada em 2016, voltou a viralizar nas redes no fim de 2023 e levou muita gente a procurar o que é tacacá pela primeira vez.

Tacacá no Norte, releituras e os outros pratos do Pará

O Pará é a referência, mas o tacacá é tomado em todo o Norte: Amazonas, Acre, Amapá e Rondônia também têm suas tacacazeiras. A base é a mesma nesses estados (tucupi, goma, jambu e camarão seco); o que muda de barraca para barraca é a medida de cada um e a pimenta, que vai a pedido.

Fora da cuia, o tacacá virou ponto de partida para releituras que a imprensa da região registra, como o tacaranguejo, com caranguejo no lugar do camarão, a coxinha de tacacá e a lasanha de tacacá. Uma versão com requeijão viralizou nas redes e dividiu opiniões. São invenções recentes; o tacacá de barraca continua com os quatro ingredientes de sempre.

Quem busca "vatapá e tacacá" costuma estar montando um cardápio paraense. A diferença entre os pratos do Pará que levam os mesmos ingredientes da mandioca:

PratoBaseComo se come
TacacáTucupi, goma, jambu e camarão secoCaldo bebido na cuia, no fim da tarde
Pato no tucupiPato assado cozido no tucupi com jambuPrato principal, com arroz e farinha
ManiçobaFolha da mandioca moída e cozida por dias, com carnes de porco e boiPrato principal, com arroz e farinha
Vatapá paraenseCreme de farinha de trigo, leite de coco, dendê e camarãoCom arroz e jambu, como prato ou acompanhamento

Onde tomar tacacá em Belém

Belém, Cidade Criativa da Gastronomia pela Unesco desde 2015, tem tacacá em quase toda esquina, vendido pelas tacacazeiras a partir do fim da tarde. Um guia do jornal Diário do Pará, de setembro de 2025, lista entre os clássicos:

Barraca de rua muda de horário e às vezes de ponto, então vale confirmar antes de ir.

Sobre esta receita

Esta é uma receita documentada, não uma receita testada por nós nesta revisão. As quantidades são as que o blog publica desde 2021 e seguem a estrutura das receitas paraenses publicadas na imprensa da região: tucupi temperado, goma, jambu e camarão seco feitos à parte e montados na cuia. As dicas de ponto e os erros comuns reúnem o que essas receitas repetem.

Fontes: reportagem da Folha de Pernambuco (dezembro de 2023) sobre a origem do tacacá, o mani poi, a palavra em nheengatu e o relato de Avé-Lallemant; Embrapa, sobre a segurança do tucupi; Lei estadual do Pará 7.549/2011, Lei estadual 7.752/2013 e Lei municipal de Belém 8.979/2013; registro do Ofício das Tacacazeiras da Região Norte pelo Iphan, em 25 de novembro de 2025, e a pesquisa da Ufopa, segundo o Portal Amazônia e a Agência Gov; guia do jornal Diário do Pará, de setembro de 2025, para os endereços em Belém.

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